Vergonha – como superar este sentimento quase inútil no adulto? (o fator mínimo)

O sábio se fortalece através das feridas que surgem em sua alma. Ele tem força interior porque não fugiu da luta e nem se iludiu. Regis Mesquita

 

 

A vergonha é muito importante na infância, ela é fundamental para o amadurecimento da personalidade. Este sentimento obriga a criança a direcionar sua atenção para o meio social, pois nesta idade é importantíssimo aprender e se adaptar às regras sociais.

 

Vergonha, inicialmente, é vergonha dos outros, do que os outros vão pensar ou falar. Vergonha do julgamento dos outros. É uma relação entre o eu e os outros. Quando os valores sociais já estão aprendidos e “dentro” da pessoa (introjetados), a vergonha também será de si mesmo. Portanto, a vergonha serve, na infância, para estimular a adaptação aos valores sociais.

 

Exemplo: um garoto chegou para o pai e pediu uma nova mochila. Ele tinha a mochila do Homem Aranha, o que estava fazendo-o passar vergonha. O homem aranha era considerado um personagem de criancinhas e ele queria demarcar que já era pré-adolescente. A vergonha tornou mais forte o sentimento de inadequação do personagem com a nova identidade que ele queria criar. É como se ele dissesse: morro de vergonha de alguém me considerar uma criancinha. Esta vergonha o estimulava a ter comportamentos e interesses diferentes, para se adequar ao que socialmente se espera de um pré-adolescente.

 

O adulto, teoricamente, já tem a sua mente madura, já conhece o meio social, já escolheu caminhos e construiu identidades. Está mais preparado para agir e entender o mundo sem precisar de sentimentos como a vergonha. No adulto, a vergonha deveria se tornar um sentimento muito pequeno e útil somente para produzir algumas poucas vivências sinalizadoras. Porém, a vergonha continua sendo importante para a maior parte das pessoas.

 

Vamos analisar um caso real e aprender como podemos lidar e superar a vergonha. Ela era casada com um homem que adorava a praia. Esta mulher tinha vergonha do próprio corpo e receio da opinião que as pessoas teriam ao verem seu corpo de biquíni. Por isto, criava todas as dificuldades possíveis para não ir a uma cidade praiana. Isto gerava conflito entre ela e o marido. Quando ia à praia, sofria muito. O que fazer?

 

A mente dela funcionava assim: ela negativizava o próprio corpo e por isto queria se proteger, escondendo-o. Durante muitos anos treinou esta solução. Ou seja, fugiu da exposição. Ela optou por se proteger dos olhares alheios, que segundo sua imaginação, iriam lhe julgar negativamente. Fazendo esta opção ela enfraqueceu a mente e reforçou o condicionamento dos pensamentos negativos.

 

Um dia começou a namorar e depois casou, com isto o conflito que estava escondido ficou claro. Ela queria acompanhar o marido; mas, acompanhando-o iria sofrer. Ela não queria sofrer, queria se defender/esconder, imaginando que assim iria diminuir o seu sofrimento. Ela não enfrentou o desafio da baixa autoestima e o sofrimento se perpetuou. Ou seja, para evitar o sofrimento ela acabou por ampliá-lo.

 

A regra da vida é esta: a vida é para ficarmos satisfeitos onde nós evoluímos e amadurecemos. Onde somos neuróticos, imaturos e pouco evoluídos devemos escolher sofrer. Sofrer no CAMINHO CERTO, na direção correta.

 

O passo número um é definir o Fator Mínimo.

 

Ou seja, definir a atitude mínima, a prioridade central, o comportamento melhor e mais adequado. No caso da mulher o Fator Mínimo era: “ir à praia e acompanhar meu marido”. É isto que deve ser feito prioritariamente: mostrar seu amor pelo marido indo passear na praia, mesmo sofrendo com sua imaturidade (medo de ser julgada). O Fator Mínimo serve para tirar a pessoa da confusão mental que ela cria ao tentar encontrar opções defensivas que supostamente diminuirão seu sofrer ou seu desconforto.

 

O passo número dois é intensificar a vida.

 

Uma vida intensa é aquela em que nos permitimos viver o que somos e o que cultivamos, sem mentira, sem enganação e sem hipocrisia. Para esta mulher, estar na praia de biquíni intensificava sua emoção negativa e estimulava seu pensamento negativo. Esta era a verdade da vida dela. Se ela cultivou o que era ruim, vai colher o que é ruim. Não adianta se esconder, mentir, enganar, fugir.

 

 

Não se iniba jamais, pensando que é pouco o que você tem para oferecer. Blog Caminho Nobre

 

 

O passo número três é agregar o que é nobre.

 

O foco desta pessoa sempre foi se esconder, inventar desculpas e cultivar a negativização de si mesma. Ao decidir pelo Fator Mínimo, ela teve que enfrentar o que cultivou. Porém, na intensidade da vida é que torna-se mais fácil cultivar o que é nobre. Vivendo em verdade e em boa direção é possível mobilizar, eliciar e dinamizar todos os sentimentos e pensamentos nobres que serão a porta de entrada para ela superar a vergonha de si. Ela, ao intensificar a vida, pôde dar mais ênfase em se sentir uma boa esposa, uma companheira capaz de enfrentar os desafios da vida, uma mulher digna que se valoriza e controla a vaidade.

 

O sofrimento, em boa direção, é uma benção para nos fortalecer e permitir superar os desafios da vida. Devemos em vários momentos escolher sofrer, devemos escolher perder algumas coisas; sofrer e perder em boa direção é fundamental para que o nobre possa aparecer e a evolução possa acontecer.

 

A vergonha é então substituída pela autoestima, pela compaixão por si mesmo, pelo carinho e pelo cuidado por si. O resultado é uma consciência ampliada e fortalecida.

 

Autor: Regis Mesquita

 

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Escolha sofrer sempre que este sofrimento lhe fizer mais forte, mais racional, melhor preparado e lhe trouxer bons aprendizados. Regis Mesquita

 

 

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22 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Viviane
    maio 29, 2011 @ 14:24:56

    Obrigada,

    As palavras certas, no momento certo.

    Responder

  2. Teofania
    ago 09, 2012 @ 20:06:47

    Sempre com palavras certas

    Responder

  3. Miguel de Accacio
    dez 10, 2012 @ 13:58:45

    Caro Regis,
    os conceitos emitidos são de sua lavra? Gostaria da confirmação por que estou escrevendo um livro onde questiono se o brasileiro tem ou não tem vergonha e, para as citações preciso das fontes exatas. Mesmo que não sejam seus (estou falando dos conceitos), pode mencionar de onde os retirou que, por via indireta, citarei seu blog como fonte última.
    Grato,
    Miguel de Accacio.

    Responder

    • regismesquita
      dez 17, 2012 @ 14:09:46

      Os textos deste blog não podem ser adaptados ou alterados em qualquer forma. Você pode copiar, imprimir e distribuir gratuitamente os textos sem alterações, desde que sejam preservadas as fontes (nome do autor e link com o endereço do blog colocados no início do texto). Não é permitido vender ou obter qualquer outro benefício financeiro usando os textos do Blog Nascer Várias Vezes. O uso maciço dos textos do blog (mais de 07 textos) necessita da autorização escrita do autor.

      As citações seguem as regras da legislação brasileira.

      Responder

  4. jose marcone da silva
    jan 30, 2013 @ 11:26:01

    legal
    Nao devemos nos render a vergonha

    Responder

  5. jose marcone da silva
    jan 30, 2013 @ 11:31:08

    A vergonha nos deixa abatido com medo de lutar ;se sentimos inferior as pessoas ,sempre enxiste um medo > medo de nao lutar para realizar os nossos sonhos >nossos objetivos etc.
    Mas temos de superar tudo e todas as nossas vergonhas………………………..

    Responder

  6. jose marcone da silva
    jan 30, 2013 @ 11:33:12

    Por favor quero uma explicaçao por que nos sentimos assim?

    Responder

  7. Trackback: Vídeo: com largar o vício de pensar | Caminho Nobre
  8. Trackback: Cuidado com a divisão da mente. Método para expandir sua consciência. | Caminho Nobre
  9. Estela Queiroz
    maio 01, 2014 @ 11:51:20

    Escreva algo sobre ¨VERGONHA ALHEIA¨. Porque as vezes sentimos vergonha alheia. Como evitar isso. Isso é bom ou ruim?

    Responder

    • regismesquita
      maio 07, 2014 @ 13:54:35

      Estela,

      todos nós temos um lado que “sente o que o outro vive”. É uma das formas que o ser humano usa para se conectar com o outro. Em alguns muitas situações vivemos a vida do outro. É sinal que há a necessidade de se auto-proteger melhor. Basta a nossa cruz, não é verdade? Ajudar ao próximo é um ação bela. Sofrer por ele é um gesto inútil (já que ele não mudará por isto).

      O blog Caminho Nobre serve para ajudar as pessoas. Você pode ajudar compartilhando as mensagens.

      Responder

      • Estela Queiroz
        maio 09, 2014 @ 14:02:24

        REGIS, Mas quando a gente sente vergonha alheia, não significa que a gente esteja vivendo ou querendo viver a vida do outro.Por exemplo: quando alguem faz algo um tanto quanto rídiculo ou constrangedor, a gente sente vergonha pela pessoa que fez isso,mas as vezes a gente sente compaixão pela pessoa estar passando pelo tal constrangimento.

      • regismesquita
        maio 11, 2014 @ 23:06:27

        Estela,
        o nome que do que descreveu é identificação. Fazemos isto o tempo inteiro; esta é uma das tarefas a cumprir para evoluir: desidentificar.
        Se uma pessoa está sentindo dor não é necessário sofrer junto. Deve-se manter a neutralidade, afinal há muitas formas de ajudar. Por exemplo, pode-se ajudar esta pessoa transmitindo energia através da imposição de mãos.
        O mesmo se dá com todo e qualquer sentimento, emoção ou sensação.

  10. Estela Queiroz
    maio 12, 2014 @ 11:52:11

    Regis, obrigado pelas sua atençao, Já li o seu livro Nascer Varias vezes,Mas continuo lendo parra aprender mais. Agora,sobre o assunto da minha pergunta,vai outra pergunta:Porque se desidentificar? para evoluir.Como se faz isso?Se eu não sinto a dor de alguem que está sofrendo,como posso ajudar esse alguem? Principalmente se for alguem da nossa familia.Por ex. Se meu filho está sofrendo eu sofro junto. Reigis, só mais uma pergunta.Sem ser este livro que citei, Existe mais livros de sua autoria?.Sua modo der escrever é muito legal, sua linguagem é de facil compreençao. Desculpe se fico insistindo no mesmo assunto, mas é para aprender que insisto. Obrigada.

    Responder

    • regismesquita
      maio 14, 2014 @ 21:55:21

      Estela,

      sua pergunta será útil para muitos. Estou escrevendo outro livro que deverá ficar pronto em 2015.

      A desidentificação é fundamental. É um processo necessário para sair da mente reativa e entrar na mente clara (veja nos links textos sobre o tema).

      A mente clara age por que é eficiente, não porque está sofrendo junto. Ela pode ajudar, colaborar, cuidar, mantendo a paz e energias mais elevadas.

      Os resultados são melhores.

      Além do que, com a mente clara (em paz) você está melhor preparado para perceber as intuições, etc. São muitas as vantagens.

      Te convido a ler os textos que falam sobre a mente clara e a mente reativa.

      abração,

      Responder

  11. Estela Queiroz
    maio 17, 2014 @ 16:21:15

    Obrigada Regis , vou ler os textos.E vou aprender.

    Responder

  12. Eloá Neto
    maio 02, 2017 @ 15:43:46

    Aliás, ler. Era tudo que eu precisava ler. É como se as palavras fossem ditas pra mim…

    Responder

  13. Regianne
    maio 02, 2018 @ 18:12:26

    Texto excepcional…Identifiquei diversas situações e pessoas.
    Obrigada!

    Responder

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